Eucaristia Laminada

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Atende por Mistress Sofia. Antes, Mineira 18. Antes, Aninha Litoral. Antes, ninguém. Ajusta o foco da webcam. Os lábios vermelhos no alto da tela, o decote fundo à vista. Aguarda. Sabe-se musa, melancólica, insone. Aguarda.

Venceu o horário das amadoras. Lollipop é manicure no salão da madrasta. Pérola BB é professora de educação infantil. Manu Safada, bancária. Impostoras, catadoras de migalhas, submissas a um dólar o minuto. Mistress Sofia é rainha cronológica. Impassível, espera os devotos notívagos que hão de imolar preciosidades a seus pés. Ofertarão o sono renegado, o abraço solitário das esposas, o plano de viagem em família.

Paulista_21cm, ignorar. Kadu RJ, ignorar. Lenhador, ignorar.

Seus apóstolos carregam os estigmas da adoração. Olheiras púrpuras, gestos sonâmbulos, palavras afogadas. É seletiva, Mistress Sofia. Cativa uma audiência fiel e aponta um, e apenas um, discípulo por noite. Dá-lhe a generosa exclusividade privativa. Concede agonia gratuita aos enjeitados. É cheia de dádivas.

Hora do arrebatamento. A lista completa e silêncio respeitoso no chat. Mistress Sofia morde o lábio inferior, mostra a pontinha dos dentes brancos ao levantar o queixo. Sudoku Selvagem dirigiu-se a ela na noite anterior e surpreende pela ousadia de se reapresentar, há de ficar bloqueado pela petulância. Rick 123 mostrou cinismo em sua última audiência, precisa de disciplina para lembrar o quão é agraciado. Desliza a unha comprida pela tela, sente cada nick representar a pessoa que esconde.

Clarinha Les, não. Ruanda, não. Marcel Sub, não. Bombado 28, não. Sandman.

Um homem pequeno, quebrado no percurso do berço à felicidade. Tem o rosto estreito de faraó, olhos nervosos por trás da armação pesada, lábios finos, cabelos rareando, a cor de papel esquecido ao sol. É contador, diz ter quarenta anos, mas passa fácil por cinquenta, cinquenta e poucos.

Sandman, aceitar.

Mistress Sofia regula o zoom. A imagem abre devagar, ganha nitidez. As paredes lilases tom doce de framboesa às suas costas acolhem pinturas abstratas em branco e vermelho. Está sentada em posição de lótus sobre um tapete redondo e cercada por velas bojudas, veste uma capa de seda azul marinho que oculta ombros, braços, coxas e joelhos. Por baixo, um sutiã e nada mais. Sandman abre a webcam, geneticamente constrangido.

Atabalhoado, fala sem ligar o microfone. Limpa a garganta, recomeça. Tem a voz de um túmulo aberto, cansada, suja. Diz “obrigado”, uma vibração mínima nas vogais, um tremor fugidio. Mistress Sofia sorri. Conflagração dos elementos, o templo, o idólatra, a deusa.

Ela levanta o indicador à altura do rosto, mantém-se estátua viva, alonga o momento, energiza-se com a tensão. A boca muda de Sandman oscila. Uma prece? Aponta para a webcam, uma ação de fé convertida em bits transmitidos via fibra ótica por quatro estados que se materializa em alta definição para o homenzinho. Hóstia pagã de liberdade, batismo incendiário. Ele estremece em êxtase.

Da gaveta, Sandman puxa a navalha. Arregaça a manga da camisa, expõe a pele arrepiada. Mistress Sofia desliza a ponta da língua pelo lábio superior. Ele geme, o brilho da lâmina reflete na lente. Para ambos, uma fuga da convencionalidade dos dias e suas asas invisíveis, o voo em círculos carniceiros, o mergulho nos restos apodrecidos da esperança martirizada.

Uma gota, sincera e humilde, oblação sanguínea em altar irreal. Comungam. Ele exibe o braço picado. Ela deixa o manto escorregar pelos ombros.

Restam quatro horas até o amanhecer.

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