Bibliofagia #004 (ou antes só…)

A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares (Argentina, 1953)

Um fugitivo em uma ilha que se acredita tomada por uma praga, visitantes estranhos, construções inesperadas e uma jornada que pode ser de fantasia ou loucura. Ah, o realismo mágico em seu berço. Quanto esforço de Bioy Casares para unir em um só livro tantas tendências, tantas imaginações.

A jornada começa com esta declaração do protagonista e narrador da aventura:

“Não espero nada. Isso não é horrível. Depois que assim decidi, ganhei tranquilidade.”

E esta afirmação, mezzo realista, mezzo cínica é como uma verdade a ser desbancada. E o processo se inicia logo nos parágrafos seguintes. Ao se deparar com inusitados visitantes em seu refúgio, nosso herói/vilão passa a se esgueirar nas sombras e observá-los. Principalmente Faustine, por quem cai de amores. E que cuidado para descrever tão pouco da mocinha, permitindo que a imaginação de cada um molde sua Faustine ideal. E, aparentemente, há um concorrente ao amor desta musa, o misterioso Morel.

A tentativa de aproximação não é bem-sucedida e somos tragados por um mistério. Que tipo de aventura é esta? Um romance pós-gótico com fantasmas e assombrações? É possível e, provavelmente, a primeira opção que nos vem à mente. Opa, espera aí. Talvez este seja um livro de fantasia, afinal. Sim, há indícios. Mas… será possível? Uma trama policial! Não, espera, ficção científica. Ah, bolas, quem se importa com esses malditos rótulos de prateleira.

A Invenção de Morel é uma amante destemida de O Retrato de Dorian Gray. Sim, eles se beijam, amam e rolam por lençóis empoeirados. Mas, aquele é mais atrevido do que este. Muito mais. E este ímpeto de não se prender a nenhuma convenção e, ao mesmo tempo, flertar com todas elas, é a maior cartada do romance.

As reminiscências do livro que assombram minhas percepções aqui e ali são as seguintes: ele permite uma interpretação em um contexto absolutamente contemporâneo e, além disso, pode ser apreciado pela visão isolada do protagonista ou de Morel, mas é na combinação das duas que se forma algo mágico.

Veja essa obsessão de Morel pela imortalidade, pela captura de seus melhores momentos. É engarrafar uma memória para a posteridade. É preservar seu próprio amor acima das limitações do corpo. Ainda que indiscreta, a invenção de Morel é o desejo secreto de muitos. A preservação, não para si, mas para quem se interessar. Já o protagonista é um símbolo do amor pelo inalcançável, o etéreo. Vai abandonando sua realidade para viver dentro da ficção de seu amor e isso é imensamente humano. Se discorda, porque gasta seu tempo lendo, assistindo séries, jogando videogames, conversando em redes sociais?

E, quanto mais mergulhado na ilusão, mais otimista:

“Existe esse caminho; viver, ser o mais feliz dos mortais.”

Sim, viver. Ainda que uma farsa. E ser feliz, claro, ainda que motivado pelo vazio.

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