Resenha – Revista Trasgo #02

Trasgo 02 - Capa

A Revista Trasgo é uma publicação trimestral independente, editada e organizada por Rodrigo van Kampen, que apresenta contos nos gêneros de fantasia, horror e ficção científica, tanto com autores convidados como por seleção através do site oficial. Seus quatro primeiros números são gratuitos para download, e a partir da quinta edição há um pequeno custo para a aquisição e os lucros são divididos entre os participantes. Além de uma excelente e audaciosa iniciativa, a Trasgo carrega nos ombros a responsabilidade de provar que é possível a profissionalização de publicações especializadas em literatura fantástica no Brasil. Conta com meu apoio e incentivo e, por isso, apresento a resenha do segundo número da revista.

Mas, e a primeira edição? Serei sincero, não gostei. E, por ser a edição piloto do projeto, cujos contos eram de autoria exclusiva de convidados, e sei como é difícil pedir a um convidado para reescrever um trabalho que ofereceu livremente, apesar de uma obrigação editorial, resolvi deixa-la de lado. Ela realmente não representa o que a Trasgo é capaz de oferecer.

Explicações feitas, vamos lá.

Ana Lúcia Merege é uma escritora experiente, possui amplo domínio da linguagem para a criação do tom pretendido em qualquer gênero no qual se aventure e habilidades narrativas para capturar e surpreender o leitor. Neste breve texto as qualidades citadas se tornam evidentes e ele acaba servindo como uma boa porta de entrada para a obra da autora, que inclui romances, novelas, contos e a organização de antologias. Em Rosas, um casal cheio de manias típicas da convivência prolongada precisa encarar um único elemento que se mostra além de seu controle. É neste ambiente doméstico e enganosamente banal que atitudes cruéis surgem como um tapa na cara do leitor. Nada de revelações aqui, seria um crime tirar esse prazer do leitor. De forma geral, Ana expressa como a banalização dos relacionamentos, a mesmice e o tédio levam a uma equalização entre pessoas e coisas, onde as segundas, manipuláveis, podem tornar-se uma obsessão com requintes de crueldade. Muito bom.

Jim Anotsu possui uma voz literária peculiar. Utiliza elementos intertextuais e metalinguísticos, referências pops a dar com pau e cativa com seu ritmo suave. Contudo, esses são apenas aditivos para sua prosa, de altíssimo nível, e não uma camuflagem. Em Hamlet: Weird Pop, a protagonista Viola está pronta para a estreia de seu espetáculo, uma releitura moderna da obra de Shakespeare. Não bastasse a apreensão, ela ainda precisa lidar com a inusitada presença do senhor Puck, advogando em nome do próprio Shakespeare, que se opõem a sua versão da peça. A trama rápida e divertida deixa para o leitor uma consideração interessante sobre a arte: não importa quantas e quais as interpretações sobre uma obra, em sua gênese ela possui um objetivo que pode ser compactado até a simplicidade absoluta. E este objetivo é, talvez, imutável. Excelente.

Meu primeiro contato com a escrita de Albarus Andreos foi através do conto publicado nesta edição, A Maldição das Borboletas Negras, uma joia em forma e estilo. Na história, a criatura chamada Jubelina levanta-se das trevas com a intenção de conseguir a mesma fama horripilante de outros monstros, como lobisomens, fantasmas e seu primo-irmão Astroaldo. Em suas andanças, terá descobertas e enfrentará ameaças que podem colocar em risco seu desejo por reconhecimento. O diferencial do conto está na linguagem regionalista, um tom que mescla fantasia e horror com nuances de literatura infantil e, claro, bom humor. A pequena fábula é um belíssimo cartão de visita do autor, espero encontrar outros textos dele com a mesma qualidade, pois impressiona.

Cristina Lasaitis reapresenta um de seus contos, O Homem Atômico, publicado originalmente em 2006. Um velho mendigo que perambula pelo centro de São Paulo vai encantando ouvintes com o que parece ser um delírio sobre o passado, onde ele era um importante físico a serviço da ditadura militar. Suas histórias tornam-se folclóricas e despertam o interesse de um jornalista que deseja saber mais sobre os segredos deste passado. Além da excelente ambientação, já que o conto foi redigido para integrar uma antologia sobre a cidade de São Paulo, Cristina também faz uso de uma linguagem leve e coloquial, mantém a fluidez da narrativa com um cuidado exemplar e oferece tanto um causo urbano como também uma ficção de história alternativa muito agradável.

Os outros dois contos da revista, infelizmente, estão longe da qualidade dos já citados. Coincidência ou não, ambos de ficção científica. Cinco Bilhões, de Victor Oliveira de Faria, apresenta uma comunidade que parece ser alienígena com um problema cósmico, a extinção de seu sol. Uma garota “especial”, como é descrita, é incumbida de realizar uma sondagem astronômica e encontrar um outro sistema para onde os viventes possam se mudar ou uma “cura” para o sol moribundo. A partir desta premissa, Victor constrói uma trama envolvendo viagens temporais, inteligência artificial e manipulação genética, motivos clássicos na ficção científica. Mas, dentro do próprio cenário criado pelo autor, muitos elementos simplesmente não encaixam e as ações de certos personagens fogem completamente ao bom senso. Em dada sequência, um cientista conduz uma desconhecida por um laboratório onde se desenvolve um projeto de alta tecnologia, e pior, contrata a mesma desconhecida, sem qualquer qualificação ou referência, como assistente no mesmo projeto. E estou citando apenas uma das falhas mais aparentes da trama, que une uma pseudociência indefensável com personagens superficiais.

Em Código Fonte, de George Amaral, temos o reencontro de amigos dos tempos de faculdade, onde um deles revela os segredos sobre uma pesquisa contra o envelhecimento e como um dos experimentos tirou a sanidade de seu pai. Daí em diante temos uma sequência incoerente de acontecimentos, reciclagem de ideias já desgastadas da ficção científica da Golden Age (e não do cyberpunk, como o autor declara em entrevista ao final da revista, pois um personagem conectado a cabos não constitui, por si só, um elemento válido para o gênero) e diálogos ruins.

Que Vitor e George perdoem a crueza de minha crítica, mas a ficção científica exige um esforço maior por parte dos autores. Não basta ter um tema e inventar uma tecnologia. Menos ainda tornar esta tecnologia o centro da trama. Isso já não funciona dentro do gênero desde os anos 1950. Como em qualquer tipo de literatura, a ficção científica exige o desenvolvimento dos personagens, dramas, coesão e, de quebra, uma pesquisa cuidadosa e a análise lógica da história quando pronta. A ficção científica é crítica, questionadora, os elementos de deslumbramento tecnológico e a ação são, na verdade, coadjuvantes no que realmente importa. Claro que isso não está escrito em pedra. Mas, tudo o que li fora desses padrões se assemelha a literatura pulp dos anos 1920. E estamos em 2015.

Para fechar a edição, há uma galeria com os trabalhos do artista Alex Leão, responsável pela capa deste volume e entrevistas com todos os autores. A Trasgo engrena pra valer a partir deste segundo número, mesmo com falhas na seleção dos trabalhos, e se insinua como leitura obrigatória.