Palavreado

Eu queria mesmo era escrever em papel de seda. Bolar umas vogais, destrinchar os contornos na fissura e penetrar as voltinhas com o bico da caneta num vai e vem babado de pingos nos is. Consoantes e suas curvas arreganhadas, que violam os limites das linhas ausentes, são pra pilar com moral. Letras prensadas, ato contínuo, acenderia esse palavreado e daria uns pegas até ficar doidão de significantes e significados. Da ponta, deixaria só um naco de seda virgem amarelada, tal e qual memória de infância. Sim. Comeria as cinzas sem hesitar, pretejando os lábios com o que foi, acabou e não volta mais.

Veja bem, quando menino, ganhei da mamãe um caderno pautado de capa dura envernizada em vermelho. Era pra eu escrever o que quisesse (“o que você quiser”). Para um menino, não ter limites é a maior limitação. Carecemos da criatividade feminina em inventar passados, presentes e futuros para nós mesmos. Precisamos de regras e supervisão. Regras de futebol e pique-esconde, supervisão na conduta e insubordinação. Deixei o caderno juntar poeira na estante por excesso de possibilidades.

Para que você entenda o motivo de eu preferir asfalto e tijolos, pele e navalha, à papel e caneta, ofereço um flashback.

A primeira regra que burlei na vida foi me apaixonar. Erro precoce, sim, eu ansiava por dissabores. De que outra forma poderia me odiar? E, por essa paixão, soprei a poeira do caderno pautado de capa dura envernizada em vermelho e escrevi um poeminha sem métrica, rima ou vergonha dedicado à minha amada recém alfabetizada e suas chuquinhas.

E ela riu, deus, como riu. Riu de ficar com os olhos cheios d’água e me chamou de retardado, riu de dobrar os joelhos e declamou minhas intenções no pátio, riu de abraçar a barriga e perder o ar. E riram suas amigas em sépia, a molecada da turma, o zelador da escola. Riram as paredes e eu. Deus, como ri enquanto arrancava as páginas do caderno pautado de capa dura envernizada em vermelho, picava em mil pedaços e jogava os fragmentos de ilusões românticas e poéticas pelo ar.

Hilário. Histérico. Histórico. Fim do flashback.

O caderno pautado de capa dura envernizada em vermelho perdeu a magia e definhou em sua existência mundana. Passou a listar a compra do mês, submisso ao orçamento doméstico. Acumulou somatórias de despesas com água, luz, telefone, aluguel, o tênis furado e a lâmpada queimada no corredor. Guardou recados dos vizinhos e dos parentes distantes. As páginas iam se enchendo dessas banalidades e eram arrancadas ao bel prazer dos escribas apressados, no todo ou em partes. As sobras mutiladas caíam e eram sopradas para o canto poeirento atrás do aparador.

E, quando a última folha se foi, ficaram as capas vermelhas exibindo cicatrizes brancas onde antes brilhava o verniz. Asas de fogo sem corpo para transportar. Vão silencioso de palavras abortadas.

Eu queria mesmo é um passado de segunda mão, lixado e polido, reluzindo inverdades que me permitissem uma boa noite de sono.

Em tempo: minha primeira paixão, a guria que ri, casou-se ainda jovem. Teve quatro filhos e foi feliz por seis ou sete anos. Depois, deu de ser poetisa. Escreveu amarguras no sofá, cortinas e carpete com o isqueiro. Morreu sufocada entre significantes e significados, mastigando as cinzas do que não foi, jamais será, mas insisti em querer ser.

Amém.