Resenha: Cães Negros, de Ian McEwan

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Cães Negros foi escrita em 1992 e mostra uma nova face de McEwan. Muitos dos seus temas mais caros estão presentes, como a passagem do tempo, a influência do passado sobre o presente e a perda da inocência. Apesar dos tópicos recorrentes de suas obras, o autor inglês sai do universo micro e avança para o macro. Eu explico: enquanto em trabalhos anteriores o foco estava em indivíduos e como eles suportavam as duras provas impostas pelo escritor e sua imaginação perturbadora; em Cães Negros ele permite uma expansão de seus conceitos utilizando um palco real, como já feito em O Inocente, mas em um momento ainda mais relevante para a história e política mundial. Com isso, não são apenas alguns indivíduos afetados por momentos obscuros e de ruptura com suas convicções e vidas passadas, mas toda uma geração, essa sim, representada pelos personagens.

O livro é intrincado em sua concepção e tem o mérito de não deixar que os conflitos,  ideológicos e subconscientes, quebrem a fluidez da narrativa, o que não é pouco. Começa que o protagonista da história, Jeremy, não é nada além de um guia para o leitor. A trama não é sobre ele ou sua fixação em famílias alheias, apesar de todo o significado de sua persona, alguém que não se encontra e volta-se para outras gerações buscando respostas e significado, o que, obviamente, não recebe.

Acontece que Jeremy resolve escrever a história de seus sogros, Bernard e June, descrevendo e entendendo a relação fraturada de ambos. Bernard é um racionalista, convicto dos benefícios do socialismo no pós guerra e arrasta June consigo na intenção de, sem grandes ações, mudar o mundo. Contudo, o encontro de June com os cães negros que dão título ao livro, acaba de vez com o alinhamento ideológico entre eles. June afasta-se do mundano, torna-se religiosa e espiritualizada, acreditando que a recompensa está em outro mundo.

Obviamente, isso cria uma tensão insustentável entre o casal e a separação não demora a acontecer. Agora, muitos anos depois, as lembranças vêm à tona, graças às entrevistas de Jeremy e a maneira como qual dá sua versão dos acontecimentos. Rancores e incompreensão mostram-se em toda sua glória e o passado, tão distante, caminha ao lado do presente.

McEwan elabora um notável suspense, prorrogando o momento do encontro de June com os tais cães até o limite. O leitor sabe que aconteceu, mas demora a ter o contato definitivo com os fatos. Verdade seja dita, se a descrição do acontecimento nem estivesse no livro, seria ainda mais aterrorizante.

Os cães negros são tão reais quanto metafóricos. Representam um mal que demora a morrer, pois estão longe das vistas e surgem quando bem entendem. São criaturas demonizadas, como citados em uma história na pensão em que o casal se abriga após o evento, que é ainda pior do que os fatos em si. Estão ali para ser a depressão de Churchill, a sombra nazista sobre a França dominada, o medo do selvagem e a representação da morte. São muitas coisas e cabe ao leitor contribuir com sua interpretação.

E não só June passa por uma provação, o próprio Bernard, acompanhando a queda do muro de Berlim ao lado de Jeremy, acaba encontrando seus próprios fantasmas. Ou seja, ninguém está isento de encontrar sua nêmese e ter suas convicções e crenças testadas, os cães negros se manifestam de maneiras distintas para cada um e para todos.