Resenha: Depois do Fim, Editora Draco

Depois do Fim - Capa

Depois do Fim é uma antologia da Editora Draco, organizada por Eric Novello. Nela, diversos autores aplicam sua visão do que seria após “o fim”, cada um entendo este fim da sua maneira. Da vida? Fé? Esperança? É válido. Na nota introdutória, escrita pelo organizador, o objetivo do livro é explicitado, sendo este reunir “narrativas que apostam com firmeza no entretenimento, desta vez adicionando uma paleta de cores mais sombria aos dramas de seus personagens.” E é considerando este objetivo declarado que fiz a leitura e resenha.

Marcelo Augusto Galvão abre a antologia com Sangue Santo. Guel Chorassange, um anti-herói que sobrevive de pequenos furtos em uma São Paulo dominada por cultos religiosos e em guerra com o Império Fluminense, esbarra acidentalmente com uma relíquia de tempos antigos que pode desmentir muitas das crenças populares e desbaratar os poderosos. Isso se ele sobreviver aos maridos ciumentos que estão em seu encalço e aos virabichos das florestas. Marcelo não perde tempo dando explicações sobre as causas de seu cenário pós-apocalíptico, pelo contrário, brinca com as hipóteses. Revela dentro da trama as restrições da nova sociedade, sem petróleo, energia elétrica e outros confortos. De fato, a ambientação é similar a um interior paulista do início do século XX, tudo muito simples e marcado por crendices. De quebra, quem reconhecer as referências a H. G. Wells, H. P. Lovecraft e animes terá o dobro de diversão durante a leitura. E “chucrocru” me fez rir. Alto.

O fim apresentado por Eduardo Kasse em seu O último gole de cerveja diz respeito à ruína de um monarca, aprisionado no calabouço de seu próprio castelo após uma guerra cheia de reviravoltas, apresentada em momento oportuno da narrativa. Não conhecia o trabalho do autor. Sua prosa vigorosa, somada a uma habilidade admirável de manter o ritmo e dinâmica da narrativa, me impressionaram. A derrocada do rei Osgar após um longo cerco a seu castelo inexpugnável é o núcleo da trama e Eduardo não se perde ao descrever a ação e batalhas, como ocorre com outros escritores, alguns inclusive experientes, que transformam a história em um amontoado de golpes e sangue, confundindo o leitor com a própria empolgação. Kasse, não. A imersão no campo de batalha é completa, graças a economia e clareza de suas descrições. Os acontecimentos, mesmo quando acelerados, são perfeitamente inteligíveis. Gostei do conto, remete a Cromwell, provavelmente a maior referência no gênero, e captura do começo ao fim. Só achei o clímax previsível, você sente o que está por vir a páginas de distância, mesmo com a inserção do Esqueleto como um MacGuffin hitchcockiano na trama. Depois de uma história tão afiada, o leitor merecia um golpe de misericórdia para tê-la como inesquecível.

Em A Sociedade Sombria, a escritora Nazareth Fonseca trabalha com seu personagem favorito, um vampiro, em um mundo pós-apocalíptico onde zumbis infestam a terra e os chupadores de sangue precisam estabelecer um pacto com os humanos para a preservação de ambas as espécies. Massato e Tereza, os heróis da trama, unem forças para enfrentar uma horda esfomeada de infectados e proteger os que precisam de auxílio médico diante da ameaça. Além disso, uma lendária cura para a infecção se insinua na história. Muita ação, correria e uma pitadinha suave de erotismo. Elementos comuns às narrativas que envolvem tanto vampiros como zumbis. Eu não gostei. Nem toda a adrenalina injetada na trama esconde inúmeros clichês. O fato do cenário lembrar, até demais, a ambientação de Eu Sou a Lenda (o filme ruim, não o livro clássico) só piora as coisas. Para o jogo de gato e rato funcionar, os personagens precisam de um enorme carisma e os de Nazareth, neste conto, são tipos comuns que já encontrei em dezenas de filmes B.

Aqui, cabe uma observação. O livro sofre de alguns problemas de revisão e o conto de Nazareth provavelmente foi o mais prejudicado com isso. Erros de concordância e pleonasmos viciosos desafiam o leitor. E isso não é típico do trabalho da Draco.

Diogo de Souza escreve Maturidade, um conto que se inicia com uma luta de pessoas que remetem a super heróis contra máquinas. Raio, um dos envolvidos, acaba por descobrir que a realidade ao seu é ainda mais terrível do que imaginava. Esse é difícil de resenhar, então, vou seguir em partes. A batalha que abre a história, uma sequência de ação e mortes, chega até o leitor sem nenhum contexto, portanto, não há empatia com nenhum dos lados e tanto faz quem vive ou morre, como o leitor não conhece os personagens, isso é indiferente. O resgate de Raio remete a uma situação já vista exaustivamente, o do abrigo que não é o que parece ser. O conto não se deixar definir em nenhum gênero a não ser ação, pois os elementos científicos não funcionam e se a tentativa era uma homenagem a Era de Ouro dos quadrinhos, o que até passou pela minha cabeça, faltou empenho na narrativa. E, um pecado grave, o título do trabalho já entrega o final. Não há clímax, pois ele é óbvio demais. Pior, é um grande clichê. Conheço alguns trabalhos do Diogo e sei que esse conto não está minimamente a altura do que ela é capaz de criar.

Intervenções de um nautiloide sobre as grafuias do equinodermo resgatador é o título do conto de Alliah. Com dois focos narrativos, sendo um deles o de um molusco, inscrições crípticas, notas sobre essas inscrições, um fóssil distribuindo sabedoria e o apocalipse, Alliah se esbaldou. Talvez o mais intenso dos seus trabalhos desde o livro solo, Metanfetaedro, ela mostra porque é uma das melhores autoras contemporâneas da Literatura Brasileira. Ei, eu não disse da ficção fantástica, eu disse da Literatura Brasileira, assim, com letras maiúsculas. A obra é incrível, hipnótica da primeira à última palavra, ousada em sua proposta e não tem medo de desafiar o leitor. Temos uma narrativa bem amarrada, um pequeno grupo de sobreviventes em um mundo pós-apocalíptico tentando encontrar refúgio naquele que parece ser o último lugar seguro. Os cenários aparentemente comuns são transformados por elementos estranhos bem encaixados, o suficiente para causar estranheza e interesse, deixando muito para a imaginação do leitor, tanto na cidade destruída como no submundo aquático. A caracterização dos personagens, tipos marginais humanos e inumanos, é precisa, você não se esquecerá de Ísis Meia Noite e o nautiloide, entre outras figuras. Isso seria o básico de uma boa história, mas encontramos muito mais. Uma prosa intensa, produzida com crueza absoluta quando necessário e uma poética surreal em suas mais belas passagens. Jogos de palavras, experimentações estilísticas e estruturais, tudo isso forjado numa cacetada literária de fazer inveja a qualquer um que um dia já teve o atrevimento de produzir um texto e levar ao delírio o leitor que aceita seu chamado. É uma história sobre a volta ao berço, reconciliação, transformação e superação. É weird, lírico e punk. Brilhante.

Blanxe apresenta uma história envolvendo o que parece ser a guerra final e deuses da mitologia grega em Passos Cegos. A premissa é interessante: o Destino encontra um rapaz cujas linhas não estão traçadas em seu livro, e isso leva a algumas mudanças consideráveis em suas atitudes e percepções. Blanxe deixa o destino na mesma posição dos humanos, perdido entre a imprevisibilidade e o desconhecido, e seu mote é bem claro quanto a isso. O final aberto, contudo, não funciona muito bem. Não por ser aberto, mas por não ter sido trabalhado de forma a deixar aquele sentido dúbio, característico deste tipo de clímax, a história simplesmente para e o conto parece inacabado. Uma pena.

A weird fiction de Cirilo S. Lemos se apresenta em O dono do cinturão caminha entre gigantes. Em um cenário complexo de destruição e subrealidades oníricas, acompanhamos o campeão de uma variação do MMA, Tito Nogueira, em sua luta para manter o cinturão, a sanidade e algo mais que não posso revelar. O conto foi escrito em uma linguagem simples e direta, um contraste com a ambientação que exige um pequeno esforço do leitor para ser compreendida, os personagens são redondinhos e as cenas de ação realistas. A história merecia uma narrativa maior, talvez uma novela, para um aprofundamento no mundo criado pelo autor, a pouca informação confunde e deixa uma sensação de desencontro em certas passagens, conforme a imaginação do leitor trabalhar as pistas que lhe são fornecidas. Ressalva feita, como todos os trabalhos do Cirilo, este também salta aos olhos.

Postdomini, de Gérson Lodi-Ribeiro oferece um conceito dos mais interessantes: após um evento miraculoso, chamado de O Esclarecimento, não existe mais fé, religião ou crença na vida após a morte. Essa mudança abrupta afeta a sociedade de uma forma visceral, pois sem o ideal da recompensa ou punição pelos atos praticados em vida, uma onda de selvageria, destruição e suicídios abala todo o mundo. Desta forma, governos precisam ajustar suas políticas de segurança para garantir um mínimo de paz e diferentes personagens circulam por este cenário apresentando um pouco do cotidiano pós-Esclarecimento. O autor faz um belo trabalho, abrange várias camadas afetadas pelas mudanças e utiliza personagens com ampla visão deste novo mundo para entreter o leitor. Gostei da narrativa, muito dinâmica e bem amarrada, mas o final apressado e um tanto artificial prejudica o ótimo conceito.

Por fim, temos também uma narrativa visual da Alliah que, apesar de outra história, complementa o conceito de renascimento e transformação que ela abordou em seu conto, da forma mais psicodélica possível.

Enfim, uma antologia com bons autores, irregular como a maioria das antologias, mas que vale e muito a leitura pelos textos que se destacam, pois eles são realmente excepcionais.