Bernardete

keys

Apertou o saco de papel junto aos seios. Pão de forma, leite e muçarela. Ela soube que muçarela podia ser escrita assim a poucos dias. Pegou o jornalzinho de um hipermercado na porta da loja e começou a folhear. Quando encontrou o anúncio da muçarela, riu e mostrou para uma colega. Esta, toda gentileza e falsidade, explicou e comprovou com a ajuda da internet que era assim mesmo. E a antiga mussarela, agora muçarela, embucetou. Quando pensava em muçarela ou pedia muçarela, imaginava a palavra flutuando nas nuvens, com o arrogante ce-cedilhado abanando um cotoco triste. Apalpou os bolsos e com o saco de papel equilibrado na coxa, vasculhou a bolsa. Fuça daqui, fuça dali e nada. Espiou por cima do portão e só um breu silencioso dormia no quintal. A filha já devia estar na cama, o que não era normal. O marido, com certeza, roncava alto, o corpo espalhado pela cama. Revirou os bolsos mais uma vez. Depois a bolsa. Passou um rapaz andando apressado. Seus tênis faziam um barulho engraçado. Ela ficou ouvindo aquele som úmido e artificial até ele sumir. Teve vontade de rir. E chorar. Respirou fundo e, conformada, caminhou de volta para a loja de conveniência, com sorte ainda estaria aberta. O toldo amarelo dizia “Conveniênçia”, mas ela nunca reparou.