Resenha: Medieval – Contos de uma era fantástica

Após um longo e tenebroso verão (que ainda não chegou ao fim), estou de volta para resenhar a antologia Medieval – contos de uma era fantástica, lançado pela Editora Draco no ano passado e organizada por Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse, dois autores cujas credenciais estão acima de qualquer suspeita quando se trata do duo histórico/fantástico.

A abordagem é interessante, temos viagens a diversos territórios e eventos reais em primeiro ou segundo plano, enquanto as narrativas se desenvolvem. Algumas romantizam situações e personagens históricos, outras aplicam desvios dos mais variados tipos na construção das tramas. Os elementos fantásticos também aparecem com diferentes intensidades, em certos casos como elemento primários e nos demais como um colorido extra ao ambiente.

São nove narrativas no total, e vou me ater aquelas que mais me agradaram. Nada de revelações ou spoilers, apenas impressões gerais.

A. Z. Cordenonsi nos conduz até a China nas vésperas da invasão de sua capital pelos dominadores mongóis. É neste cenário turbulento que O desejo de Pungie acompanha o pequeno herói na busca de alimento para sua família e, quem sabe, um pouco de dignidade antes da queda. O autor enriquece o texto com nuances da língua chinesa, facilitando a imersão do leitor na narrativa. É fácil simpatizar com um excluído como Pungie e torcer por sua vitória e a simplicidade da estrutura narrativa, uma constante na antologia, permite uma sensação de leitura clássica.

Com A Clareira Mágica, seguimos para Portugal e conhecemos a história de Diogo Sardo, um jovem que sofreu na carne as agruras da guerra e só recebeu como recompensa a ameaça de perder suas terras. Para recuperar a confiança abandonada no campo de batalha, Diogo contará com a ajuda da bela e misteriosa Anabel. Lido como um conto de fadas insinuante e misterioso, a narrativa de Roberto de Sousa Causo deixa uma boa impressão, com ritmo agradável e o volume correto de informações complementares para situar o leitor sem cansá-lo.

Daí partimos para terras nórdicas com Eduardo Kasse em Sacrifício. O autor é um expert em narrativas de ação e não esconde os detalhes sórdidos e mais violentos em suas obras. A história dos irmãos Arvid, Ragnvald, Einarr e Ulrik tem a estrutura de um conto pulp da era de ouro, uma trama simples, mistério e aventura, o que o torna divertidíssimo. Mas, contudo, no entanto, porém, é exatamente a experiência e o talento de Kasse, que conheço de outras leituras, que me obriga a ser mais severo na avaliação. Creio que ao utilizar uma fórmula já tão explorada, faltou a Kasse acrescentar toques mais característicos à trama, elementos que a tornassem menos genérica e mais pessoal. Reafirmo: divertidíssimo. Mas, esse “macho style” e as frases de efeito funcionam melhor no Telecine Action do que nas páginas reservadas a alguém tão preciso e cuidadoso como Kasse. Ei, mas são vikings! Sim, eu sei. Talvez, no geral, a ambientação não tenha sido suficientemente trabalhada para criar a suspensão de descrença necessária para crer em cada personagem como indivíduo.

Kitsune, por sua vez, é a narrativa de uma fábula ambientada no Japão e escrita por Erick Santos Cardoso, uma história de honra e traição com elementos fantásticos e poéticos. É uma bela escrita, com variações precisas entre o mundano e o fantástico, possui intensidade e um cenário construído com esmero. Só peca pela profusão de adjetivos, que torna a narrativa por demais expositiva. Se intencional, para manter o tom e respeitar a brevidade, ok. Mas, incomoda um pouco.

É justo aplaudir o esforço de Nikelen Witter em construir, em poucas páginas, uma trama interessante, um personagem forte e elementos temáticos que merecem uma atenção especial. A Dama Negra e a Donzela de Palha é um conto que se passa na Inglaterra e acompanha o crescimento do jovem Edward, de sua vida como camponês e a tristeza em relação ao mundo pequeno em que vive, até as descobertas que o levam a experiências e espaços maiores. Sem apelar para melodramas ou discursos fáceis, e sempre com elegância, Nikelen não apenas desenvolve sua história como também coloca na mesa questões importantes como o racismo, opressão e machismo. Além disso, o final é digno de nota, utilizando um artifício conhecido, é fato, mas que casa perfeitamente com o que foi elaborado.

Com Ana Lúcia Merege somos guiados para o Califado de Córdoba (na região onde, atualmente, estão os territórios de Portugal e da Espanha) em O Grande Livro de Fogo. Num clima a la Mil e Uma Noites, somos apresentados à ambição de Khadija, o desejo de Mustafá em agradar sua filha e aos segredos de Walid. O trio acaba atraído para os perigos das promessas de um jinn e deverá encontrar um livro perdido para que seus desejos sejam atendidos e, mais importante, suas vidas salvas. Com a prosa elegante e erudição que lhe são características, a autora proporciona uma viagem de aventuras e reflexões ao leitor, pagando tributo aos velhos contadores de histórias em sua narrativa segura, envolvente e divertida. Sem dúvida, o melhor conto do livro.

Como a grande maioria das antologias temáticas, Medieval – contos de uma era fantástica,não está isento de uma certa irregularidade. Mas, o saldo é muito positivo. Apreciada com calma, permite um passeio guiado por uma das épocas mais obscuras de nossa história e coloca vida no que vemos, hoje, em preto e branco. Sim, eu gostaria de um pouco mais de ousadia dos autores nas estruturas narrativas. Contudo, não me parece ser a proposta, mais calcada em um desenho clássico e tradicional no desenho dos contos, remetendo à literatura baseada em eventos da época. E tal proposta precisa ser entendida para a assimilação do que é oferecido. Ou seja, contos de alta qualidade por alguns dos melhores da literatura fantástica nacional.

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